Notas do tempo

Caixa de sapatos virtual

No próximo carnaval, estarei em Olinda.

Eu com uns 18/19 anos. Gio, minha primeira sobrinha, com 10 meses.  Nesta época eu ainda sabia datas de aniversários de namorados porque só havia namorado um menino. Dois meses depois eu te conheci e ganhei um nó de calendário na cabeça.

Eu com uns 18/19 anos. Gio, minha primeira sobrinha, com 10 meses.
E toda a alegria das câmeras digitais de baixa qualidade dos nos 2000 e das casas inacabadas dos recém-casados. 

Lembrei de você no último carnaval. Não foi uma imagem bonita, uma música ou algum cheiro que trouxe você à mente. Segundo uma amiga quase psicóloga, o subconsciente nos prega estas peças e fica a nos lembrar o que já era para termos esquecido há tempos. Alguma coisa neste sentido, se é que entendi bem, pois meu conhecimento sobre psicologia é nulo. Ouvi esta explicação ano passado, quando em mais um carnaval eu estava trabalhando. Igual à terça-feira em que te conheci.

A explicação da amiga quase psicóloga acompanhou a sua lembrança como um brinde oferecido em uma loja popular: você não sabe para que serve, mas vai tentar encontrar alguma utilidade. Afinal, foi de graça.

Assim, minha terça de carnaval foi dedicada a descobrir o que dispara o gatilho da sua lembrança.

Pensei primeiro que era uma fossa eterna, coisa de mulher mal amada. Mas outros amores vieram depois de você, bons e ruins. Além do mais, a lembrança nunca vinha acompanhada de saudades. Descartei a possibilidade da fossa.

Achei que era a terça de carnaval. Talvez um encontro épico, à moda Hollywood, fizesse minha mente sempre retornar a esta data para lembrar algo incrível. Mas não tinha nada de incrível, era só um encontro de uma menina de 19 anos e um menino de 20 anos, ambos meio abobalhados. Ela ainda se acostumando com a idéia de encontros que não aconteciam em bibliotecas e não giravam em torno de escritores e computadores. Queria acreditar que este encontro foi memorável, mas outros encontros vieram e este deixou de contar qualquer coisa de especial para ser apenas mais um.

Porém, o carnaval me lembrou que podemos marcar o tempo como bem entendemos em nossos universos particulares. O que me levou à idéia do mês de fevereiro e a agonia e a ansiedade chegaram para fazer companhia. Foi aí que eu descobri o gatilho da lembrança: eu nunca soube a data do seu aniversário.

Certo, estou exagerando. Nunca é um termo um pouco forte. Eu sabia que era em fevereiro. Quando começava o mês, automaticamente, eu tentava descobrir a data com perguntas esquivas, cercando você, seus amigos, sua mãe. Qual dia é melhor para fazer uma festa? Quantas bebidas compraremos para a festa? Subterfúgios para descobrir uma data, mesmo depois de 4 anos de relacionamento.

Não bastasse a minha incapacidade crônica de decorar qualquer coisa, havia o motivo principal pelo qual eu não conseguia lembrar: ao pensar no som da data do seu aniversário, técnica que utilizo às vezes para lembrar-se das coisas, este era próximo demais do som da data de aniversário do namoradinho anterior. 8 de fevereiro e 18 de fevereiro. Eu não sei até hoje quem nasceu em cada data. Repita em voz alta: oito, dezoito, oito, dezoito. Quase igual, sons próximos demais.

Se te consola, eu já esqueci meu próprio aniversário. Minha mãe também já o esqueceu. Meus avós já me parabenizaram em datas aleatórias, tentando acertar o dia. Segundo eles, muitos filhos e muitos netos. Por fim, às vezes minha mãe insiste em me chamar de Aline e a Aline de Bianca. Não fique com o orgulho tão ferido, eu acho que é uma incapacidade genética.

Eu poderia ter te dito isto, talvez sem a parte do namoradinho anterior. A minha cabeça de vento viraria uma piada e todo mês de fevereiro você poderia me enganar, inventando um aniversário por semana. Quatro festas em um mês, todas deliciosamente de mentira. Um bom mês de (des)aniversários.

Mas as coisas já eram complicadas demais, com você infernizando-me com idéias de casamento e indignado porque eu não ficava sonhando acordada com esta idéia estapafúrdia. Era melhor viver a agonia do mês de fevereiro, senão seria mais um motivo para me incomodar.

Isto tudo foi porque, ao descobrir o gatilho da lembrança, percebi que passo por esta agonia carnavalesca há dez anos, sem que isto faça nenhum sentido, pois já seguimos rumos diferentes há muito tempo.

Percebi que dez anos é muito tempo, muita coisa acontece neste período. Assim, estes rabiscos que comecei querendo falar sobre auto imagem e fotografia digital, virou uma carta que nunca será lida por você.

Por isto, no próximo carnaval estarei em Olinda, subindo ladeira, dançando samba de coco e bebendo axé. Se em algum momento eu sentir qualquer coisa relacionada a você, darei cachaça para o meu subconsciente enquanto danço no palco com as amigas travestis no Recife. Porque se lembrar de você todo carnaval e ficar agoniada porque não lembra a data do seu magnífico nascimento já está monótono demais.

Um grande abraço e um ótimo carnaval 2016.

Bianca

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Informação

Publicado em 2 de março de 2015 por em Como se faz uma pessoa?, ex-amor.
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