Notas do tempo

Caixa de sapatos virtual

Sobre os 29,sobre os 30,sobre as mulheres em construção e as que me constroem.

Ela no passado.  Eu no futuro.  A foto como espelho do tempo.           Fiz 29 anos. Ao longo dos 20 anos, pensava se, quando eu chegasse aos 29, ficaria olhando para trás e lamentando algo. Ou, se teria medo dos próximos dez anos.  Agora, chegada a data registrada no RG, olho de relance para trás. Vinte é vinte. Estão lá, bem vividos, sem manuais de felicidade ou de amores eternos. Sem seguir as dez dicas para o sucesso mas seguindo, insistentemente, todas as necessárias para o fracasso. Aos 20, o que eu mais fiz foi questionar e confrontar o fracasso.

Mas olho, curiosa, para os trinta anos. Não porque existam grandes esperanças. Olho curiosa porque, ao me ver com 30 anos, vi um rosto que se desmanchava em névoa e adquiria feições que ora eram minhas, ora eram de outras. Vi gestos que eram meus, trejeitos e tiques replicados em um passado infantil, quando estes mesmo gestos e o charme pertenciam àquelas mulheres que eu olhava sem entender, as tais mulheres da minha família que, diziam, eu tanto me assemelhava. Não me via nelas, não as entendia. Agora, de maneira estranha, porém tranqüila, vejo elas em mim. Percebo os traços do rosto que se modificaram, o gesto espontâneo em meio a uma conversa, os gostos, as preferências.

Fico na dúvida se sou única ou se sou apenas um emaranhado de trajetórias femininas que se cruzaram. Ou ainda, se posso ser única e, ao mesmo tempo, várias. Se todas as vezes em que resolvi ir embora, quem ia era eu ou a história de uma bisavó nunca conhecida, que foi embora quando bem quis. O quanto da personalidade é construída a partir destas histórias que acabam por fazer parte das lendas familiares, seja para o bem ou para o mal. O quanto um rosto parecido, um nariz adunco, um cabelo liso ou crespo denunciam não apenas semelhanças físicas, mas de trajetórias, sofrimentos, amores, mudanças. O quanto as sinas de cada uma são semelhantes. O quanto a condição de ser mulher nos aproxima e nos afasta. Vejo isto em um rosto de quase 30. Às vezes, ele não é meu. Apenas reflete o rosto de outras. Mas sempre lutará por todas elas.

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Publicado em 3 de janeiro de 2015 por em Aqueles que eu vejo, Como se faz uma pessoa?, Família.
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