Notas do tempo

Caixa de sapatos virtual

Para começar a revirar a caixa…

Bianca na casa dos padrinhos.  Canoas, março 1986.  Entre 6 e 7 meses de vida

Bianca na casa dos padrinhos.
Canoas, março 1986.
Entre 6 e 7 meses de vida

Há algum tempo tenho pensado em trabalhar com as imagens de família que sequestro e guardo cada vez que reviro os papéis da casa da minha avó.

A imagem da qual sempre parto é a fotografia da minha mãe na primeira comunhão: menina de cabelo preto, liso, com um vestido de minissaia. Menina que olha timidamente para a câmera. Menina de sorriso escondido. Menina. Eu, a filha-menina, que acessa por uma foto, a mãe-menina.

Outras fotos do acervo que sempre me chamaram a atenção são as fotos dos meus avós em festas e bailes, em especial aquelas que pareciam feitas por ou para operários de fábrica e filhos de colono imigrantes, Estas chamavam-me a atenção pelo aspecto festivo, pela composição que sugeria movimento, pelas modas usadas pelo avô e pela avó, produzidas nos dias de folga na máquina de costura caseira. Pelo contraste com os avós velhos que eu conheci, já sem festas.

Por fim, as nossas fotos, as fotos das três marias: eu ( a caçula), minha irmã e minha mãe. Gosto especialmente das fotos que retratam o cotidiano do último ano em Canoas e dos dois primeiros anos em Curitiba. O último ano são fotos de quem não aguarda mudanças. Os dois primeiros anos são as fotos da família turista, feliz, curiosa por uma cidade nova, sem referencias afetivas anteriores com o local. Fotos de olhares ainda frescos.

Penso também na nossa relação com a fotografia. Não temos foto do casamento dos meus avós. Conforme eles contam, fotografia nos anos 50 era um luxo que o casal de colonos não podia pagar. Fotos d@s bisav@s são raras, existem apenas imagens deles já bem idosos, nos anos 70. Assim, a primeira sequência de fotos da família são as feitas na primeira-comunhão de cada um dos filhos. Este também é o pretexto para a primeira foto em que todos estão reunidos, com pose de família rica e sapatos gastos que denunciavam a pobreza.

Assim, seguiu-se uma família sem cultura de imagem fotográfica. Tenho um tio que durante os anos 70 foi hippie e fotógrafo amador, militante solitário da fotografia na família. Minha avó jogou fora, já nos anos 2000, os negativos dos trabalhos dele.

Eu, militante da preservação da imagem fotográfica da família, talvez por muitos deles só ter conhecido por estas fotos.

(Texto produzido após o primeiro dia da Oficina Imagem e Memória, com Patrícia Lion, em 11 de junho, com o único objetivo de registrar o/os processo(s) )

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Publicado às 14 de junho de 2014 por em Família e marcado , , .
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